
Caso Palocci pode induzir o STF a inventar o estupro sem estuprador O caseiro Francenildo e o deputado Palocci: só a vítima foi castigada
Por falta de quorum, o Supremo Tribunal Federal adiou a absolvição que
falta para transformar o deputado federal Antônio Palocci, por falta
de provas, no candidato do PT ao governo de São Paulo sem maiores
explicações a oferecer, sem mea culpa a fazer. Como faltaram provas,
o ex-prefeito de Ribeirão Preto escapuliu do banco dos réus onde o
instalara a suspeita de que se meteu em delinquências e patifarias
promovidas pela empresa Leão e Leão, incumbida de coletar o lixo da
cidade. Como a maioria das 11 togas anda murmurando que faltam provas,
o ex-ministro da Fazenda será inocentado no julgamento do processo que
trata da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa.
É possível que a Polícia Federal não tenha reunido provas e evidências
suficientes para convencer os ministros do STF de que Palocci
participou diretamente do estupro da conta na Caixa Econômica Federal,
ocorrido em março de 2006. Os sherloques sempre parecem mais
interessados na vítima que no suspeito. É possível que faltem à
papelada burocratices indispensáveis à colagem do selo que identifica
um “devido processo legal”. Tudo é possível num Poder Judiciário em
que se tornaram rotineiras coisas de que até Deus duvida.
Deus decerto duvida de que o STF está prestes a surpreender o mundo
jurídico com uma invenção brasileiríssima: o estupro sem estuprador.
Ministros, desembargadores, meirinhos, delegados, bacharéis,
estagiários, todos sabem o que nem o logotipo da Caixa finge ignorar:
a conta foi violada ilegalmente. Houve, portanto, um estupro. Mas não
haverá um estuprador caso Palocci seja inocentado. Se não existe o
criminoso, tampouco existirão cúmplices, comparsas, paus-mandados ou
coisa parecida. Só o crime. É uma novidade e tanto.
Até o fim de setembro, parentes e amigos de infância de Palocci podiam
fazer de conta que a culpa do réu não fora inteiramente comprovada.
Depois do início de outubro, quando circulou a edição n° 25 da revista
Piauí, foi implodido o direito a dúvidas solidárias. Baseada em
investigações que se estenderam por um ano, uma irretocável reportagem
de João Moreira Salles recompôs minuciosamente a história espantosa.
Se os ministros do STF querem saber o que ocorreu, está tudo ali. Se
querem provas, indícios, evidências, está tudo ali. Se querem
reconstituir os passos dos envolvidos e conhecer a atuação de cada
um,, está tudo ali. O que a polícia deixou de fazer foi feito
exemplarmente por Moreira Salles.
A leitura impõe a desoladora sensação de que a pátria da impunidade já
não se limita a absolver pecadores. Também pune inocentes. Num
depoimentò à CPI dos Bingos, Palocci disse que nunca visitara a
suspeitíssima ”República de Ribeirão Preto”. Encarregado de cuidar da
mansão no Lago Sul, Francenildo contou que o ministro aparecia com
frequência no endereço alugado por amigos que o chamavam de “chefe”.
Por ter mentido, Palocci perdeu o cargo no primeiro escalão ─ mas se
elegeu deputado meses mais tarde e pode virar candidato a governador.
Por ter dito a verdade, o caseiro perdeu o emprego, o sossego, a
mulher e a chance de conseguir trabalho fixo em Brasília.
Formalizada a absolvição, os brasileiros terão de acreditar que o
sigilo bancário de Francenildo se quebrou sozinho. E os imortais da
Academia Brasileira de Letras terão de decidir qual é a grafia correta
da novidade. Em 2006, o que houved foi um auto-estupro. Depois da
reforma ortográfica, o hifen ficou ou sumiu?
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